Unicamp faz primeira defesa póstuma de doutorado após morte de aluna e orientadora
Unicamp realizou defesa póstuma inédita de tese sobre dança e meio ambiente após mortes de doutoranda e orientadora.

A Universidade Estadual de Campinas fez, na segunda-feira passada, a primeira defesa póstuma de um doutorado em sua história. A aluna e a orientadora morreram antes da banca avaliar o trabalho, que uniu dança e práticas ligadas ao meio ambiente.
Quem eram as pesquisadoras
A doutoranda Carla Vendramin morreu em janeiro de 2024, em Porto Alegre, vítima de um incêndio. Ela tinha formação em coreografia e atuava como professora universitária ligada a temas de dança, educação e questões ambientais.
A orientadora do trabalho, Silvia Geraldi, morreu em julho de 2025, em Campinas, por causa de uma doença que já acompanhava desde o nascimento. Ela integrava o corpo docente do Instituto de Artes da própria Unicamp e era reconhecida na área de dança contemporânea no país.
O que a tese propõe
O trabalho investiga como atividades ligadas à terra, entre elas o cultivo de bambu e práticas de agrofloresta, podem se combinar a movimentos corporais e à dança. A ideia central é usar o corpo como caminho para pensar uma relação mais consciente com a natureza.
A orientadora desejava que a pesquisa fosse concluída e publicada mesmo após a morte da aluna, mas a universidade não tinha um procedimento formal para esse tipo de situação. Diante disso, foi criado um novo rito interno para viabilizar a defesa sem a presença de nenhuma das duas.
Como foi a banca
A sessão ocorreu na Casa do Lago, espaço do Instituto de Artes, e reuniu professoras, pesquisadoras e pessoas próximas às duas homenageadas. O formato se afastou do modelo tradicional de banca acadêmica.
Houve apresentações de dança e leitura de trechos do texto entre pausas dedicadas à convivência dos presentes. O momento também trouxe referências simbólicas à trajetória artística da doutoranda, ligada a apresentações de palhaçaria ao longo de sua carreira.
Uma professora da instituição assumiu a condução das etapas finais do processo até a data da defesa, atendendo a um pedido da coordenação do programa de pós-graduação. A aprovação do trabalho pela banca abre caminho para a publicação no repositório digital da universidade.
Por que o caso chama atenção
Defesas póstumas não são desconhecidas no meio acadêmico, mas a Unicamp nunca havia enfrentado um caso em que tanto a autora quanto a orientadora do trabalho tivessem morrido antes da conclusão do processo.
A criação de um rito específico para essa situação pode servir de referência para outras universidades que vierem a passar por circunstância semelhante no futuro.
O episódio também reforça um debate sobre o reconhecimento de pesquisas na área de artes dentro da academia, historicamente menos valorizada em relação a outras áreas de conhecimento científico.


